Nem é você que eu espero, já te falei. Aquele um vai entrar um dia
talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda
vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro, e imagino
ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no
canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito
que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai
sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu
joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu
venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você, por outros como você.
Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e
ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor.
Cuidado, comigo: um dia encontro.
Só por ele, por esse que ainda não
veio, te deixo essa grana agora, precisa troco não, pego a minha bolsa e
dou a fora já. Está quase amanhecendo, boy. As damas da noite recolhem
seu perfume com a luz do dia. Na sombra, sozinhas. envenenam a si
próprias com loucas fantasias. Divida essa sua juventude estúpida com a
gatinha ali do lado, meu bem. Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho,
eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo
daqui. continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura.
Parada pateta ridícula porra-louca solitária venenosa. Pós-tudo, sabe
como? Darkérrima, modernésima, puro simulacro.
Dá minha jaqueta, boy,
que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me
desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha
perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada.




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